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Banco de Pele: saiba mais a respeito!

Por Dr Eduardo Chem, Cirurgião Plástico, Diretor do Banco de Pele de Porto Alegre, para o site da Clínica Hexsel de Dermatologia

 

Um Banco de Pele foi criado em Porto Alegre e este artigo visa a divulgar e informar as pessoas sobre as importantes funções exercidas por esta instituição, que funciona na Santa Casa de Porto Alegre e é dirigida pelo autor deste texto, o Dr Eduardo Chem. A missão do Banco de Pele é ajudar pacientes com grandes perdas de pele, como ocorre em grandes queimados e após traumas extensos.

O fundador do Banco de Pele foi o renomado Cirurgião Plástico Dr. Roberto Correa Chem que, visionariamente, criou alternativas de tratamento capazes de ajudar na recuperação de grandes queimados. Para cumprir esta missão de ajudar a esses e outros pacientes, o Banco de Pele depende de doadores.

O trabalho que o Banco de Pele da Santa Casa vem realizando, bem como os processos seguidos pela instituição são explicados a seguir.

 

O que é um Banco de Pele ou um Banco de Pele?

Um Banco de Pele é uma instituição registrada no Conselho Federal de Medicina (CFM), acreditada pelo órgão regulatório brasileiro Anvisa, e supervisionada pelo Sistema Nacional de Transplantes (SNT).

 

Quais as funções de um Banco de Pele?

O Banco de Pele exerce as funções de captar, processar e armazenar a pele humana, a partir de um doador de múltiplos órgãos. O Banco de Pele tem também a função de disponibilizar as lâminas de pele para os pacientes que necessitam, para futuros transplantes.

 

Quais os pacientes que podem se beneficiar de um Banco de Pele?

Pacientes com patologias específicas, principalmente pacientes que sofreram grandes queimaduras ou grandes perdas cutâneas, são os que mais se beneficiam da existência de um Banco de Pele.

 

Como se chama a pele humana processada em um Banco de Pele?

Pele alógena.

 

Quem pode doar?

Pacientes com idade entre 18 e 69 anos, com pele hígida, que vieram a óbito após parada cardiorrespiratória nas últimas 12 horas ou tiveram morte encefálica, cuja paciente tenha autorizado em vida ou a família consinta na doação.

 

O que é necessário para autorizar a doação?

O consentimento da família é o primeiro passo, seguido da assinatura de um termo de consentimento.

 

Como a família autoriza a doação?

No caso do Banco de Pele da Santa Casa, a família de um potencial doador é abordada por um profissional capacitado que questionará quanto ao interesse de doar a pele do seu familiar. Havendo consentimento, a família autoriza a doação assinando um Termo de Consentimento.

 

Como é realizada a captação de pele?

Uma fina lâmina de pele de regiões não expostas é retirada pelo cirurgião responsável. É importante ressaltar que não há nenhuma mutilação do corpo do doador.

 

Quais são as regiões do corpo onde a pele é captada?

A pele é retirada de regiões que não ficam aparentes durante o momento em que o corpo do doador e velado, como coxas, pernas e tronco.

 

O doador fica com alguma marca aparente após a doação de pele?

Não. O procedimento de doação envolve a retirada de uma camada muito superficial da pele, em áreas que ficam ocultadas por roupas. Após a captação da pele, as áreas doadoras apresentam uma coloração mais clara em relação ao tom da pele do doador, como pode ser observada nas figuras abaixo, antes e depois da captação da pele doada, apenas uma coloração mais clara na área em que a pele foi captada.

 

A doação é um processo sigiloso?

Sim, o Banco de Pele não informa quem é o doador, mas a família pode divulgar o seu gesto, caso queira, ajudando outras pessoas a repetirem este mesmo gesto generoso, que poderá ajudar a muitos pacientes.

 

Quais as principalmente indicações do transplante de pele?

A pele alógena funciona como um curativo biológico temporário para cobertura de feridas superficiais ou profundas. Mas, as principais indicações para a utilização da pele alógena são os pacientes que sofreram queimaduras profundas e extensas ou pacientes que tiveram grandes traumas, com perdas significativas da pele.

 

Como funciona a distribuição da pele produzida pelo Banco de Pele?

A distribuição dos tecidos processados se dá para as Unidades de Tratamento de Queimados de todo o País, sendo regulada pela Central Nacional de Transplantes (CNT). Para solicitar o tecido, o médico que fará o transplante deve entrar em contato com o Banco de Pele para informar a sua necessidade e verificar a disponibilidade de estoque de pele halógena do Banco.

 

Como funciona um transplante de pele?

A lâmina de pele alógena é colocada sobre a área receptora. A pele é um órgão que provoca alta resposta imunológica, o mesmo ocorrendo com alguns outros órgãos do corpo humano.  À medida que as células de defesa do receptor entram em contato com a pele transplantada, o enxerto é reconhecido como “não-próprio” ou “estranho”. Inicia-se um processo esperado de rejeição do enxerto, que é seguido pelo desprendimento do mesmo em, aproximadamente, 21 dias após a enxertia. Neste período, a pele do receptor já estará parcialmente restabelecida. Todo este processo é acompanhado pelo medico que fez  transplante.

 

Qual a extensão da pele produzida a partir de um doador?

A partir de cada doador de múltiplos órgãos, o Banco de Pele produz, em média, 1500 cm² de pele.

 

Quantos doadores o Banco de Pele de Porto Alegre recebeu em 2023?

Em 2023, 23 famílias consentiram em doar a pele de seu familiar.  Isso permitiu totalizar uma extensão de 34.500 cm² de pele, quantidade esta que foi capaz de atender apenas 35 pacientes vítimas de extensas queimaduras.

 

Essa extensão de pele produzida pelo Banco de Pele atende a demanda?

Não. Ainda estamos longe de atender a demanda satisfatoriamente. Precisamos de mais famílias que consintam na doação.

 

Qual a demanda brasileira de pele para grandes queimados?

O Brasil possui mais de 1.000.000 (um milhão) de vítimas de queimaduras anualmente. Considerando que cerca de 1.000 pacientes apresentam queimaduras extensas, estes podem vir a necessitar alternativas como o transplante de pele para o seu tratamento.

 

Qual é a meta para beneficiar pelo menos a metade dos pacientes brasileiros que venham a ter queimaduras graves?

Ainda temos uma grande meta a ser atingida no Brasil em relação aos transplantes. Para beneficiar cerca de 500 queimados graves, precisamos de, pelo menos, 320 doadores por ano. Esta meta só poderá ser atingida pela compreensão e generosidade dos familiares, além do conhecimento do processo, para que cada vez mais pessoas doem seus órgãos, inclusive a pele.

 

Existe alguma alternativa viável para suprir as necessidades?

A membrana amniótica é uma alternativa importante para colaborar com o cenário de baixos estoques de pele alógena.

 

O que é membrana amniótica?

A membrana amniótica é o tecido da bolsa que envolve o bebê dentro do útero. Essa membrana é, de regra, descartada após o parto mas poderia ser usada como alternativa para uso em grandes queimados.

 

Membrana amniótica durante processamento no Banco de Pele (foto arquivo interno do Banco de Pele do fundador, Dr. Roberto Corrêa Chem).

 

A membrana amniótica pode ser doada ao Banco de Tecidos?

Não. Infelizmente, o Brasil é o único país da América do Sul que não possui regulamentação para distribuição de membrana amniótica para uso clínico. Países vizinhos como Uruguai, Chile e Argentina também já utilizam este tecido.

 

Como a membrana amniótica é utilizada para substituir o de transplante de pele alógena?

A membrana amniótica é uma membrana biológica (Figura 2) que se localiza na camada mais interna da placenta. Pode ser coletada no final do parto para ser aproveitada como curativo biológico de feridas. Apresenta baixo custo e assegura condições ideais ao leito da ferida queimada. Além de favorecer o processo de cicatrização, diminui a dor local, pois protege as terminações nervosas e reduz as chances de inflamação.

 

Já foi usada membrana amniótica no Brasil? De onde veio?

Sim. Depois incêndio ocorrido na Boate Kiss em janeiro de 2013, o Banco de Pele da Santa Casa de Porto Alegre recebeu, além de pele alógena, uma grande quantidade de membrana amniótica de Bancos de Pele estrangeiros. Como a pele humana para transplante é escassa, mas a Membrana Amniótica é abundante, muitos Bancos de Pele de outros países doaram grandes quantidades dos seus estoques para nós.

 

Na tragédia da Boate Kiss, todo o estoque foi utilizado?

Poucos dias depois da tragédia, constatou-se que as vítimas tinham queimaduras inalatórias predominantemente, e poucas queimaduras cutâneas. Isso resultou numa grande sobra dos tecidos doados. O SNT, assim como o Ministério da Saúde, autorizou o nosso banco a armazenar tal material nobre, para usá-lo em futuros pacientes que a necessitassem. E assim o fizemos.

 

Há algum projeto para regulamentar o uso de membrana amniótica?

Atualmente estamos realizando um trabalho minucioso para a legalização do uso da membrana amniótica no Brasil. Elas podem ser uteis, não apenas em queimados mas, em diversas situações clinicas, tais como úlceras diabéticas, bridas uterinas, endometrioses, queimaduras oculares, mal formações urogenitais, casos de meningomielocele, mediastinites, entre muitas outras patologias nas mais variadas especialidades médicas.

 

Aparência física da pele de um doador antes e depois da captação da pele. Conforme referido no texto, a pele na região doadora fica discretamente mais clara (Fonte: arquivo interno do Banco de Pele do fundador Dr. Roberto Corrêa Chem).